sábado, 11 de dezembro de 2010

lançamento

No estadão:
"O livro Arquivo Brasília, ambicioso trabalho de catalogação e restauração de fotografias históricas da cidade feito pelos artistas Lina Kim e Michael Wesely, lançado neste fim de semana pela Cosac Naify (...)Nele, seus autores reúnem imagens raras e esquecidas em arquivos ou coleções privadas, recontando a história de Brasília sob nova perspectiva."



Além das fotos, certamente teremos aquela enxurrada de textos que falam de Brasília à distância, da Brasília que está na cabeça e não do espaço real, vivenciado.
Um desses textos, já pressinto, é o da prof. Ana Luiza de Souza Nobre, que considera os espaços residenciais das super-quadras como correlatos aos espaços residenciais americanos, um enfoque tão superficial quanto equivocado: em Brasília o espaço público é contínuo e quando não é assim, caso de alguns setores ao longo da avenida W3, os conjuntos se parecem mais com as antigas vilas paulistanas e não com o subúrbio americano.

Já para "o crítico e professor da USP Lorenzo Mammì, Brasília é a imagem de um projeto desenvolvimentista que não deu certo". Acho o contrário: o impacto econômico e cultural da cidade no imenso e então inexplorado interior do Brasil é o atestado de que ela deu certo do ponto de vista do desenvolvimento.

Outro, o crítico de arte Helmut Friedel, aproxima o projeto de Lúcio Costa daquele de Albert Speer do Grossdeutsche Reich, o Grande Reich Alemão de Hitler, em Berlim, porque ele também se baseava em linhas axiais. Friedel se esquece de que a tradição das cidades organizadas a partir de eixos ortogonais vem desde os egípcios e torna-se norma com os romanos: o cardus e o decumanus.

O crítico e curador inglês Mark Gisbourne diz que "a árdua labuta dos operários foi desconsiderada pelas autoridades, "não havendo sinais de que foram consultados sobre como imaginavam ou desejavam a nova capital". Vejamos a cena: trabalhadores do Brasil, como vocês querem a sua nova capital? E o cafézinho, com açúcar ou adoçante? Gisbourne deveria exercitar o seu populismo rasteiro lá na Inglaterra: "...e então? quem vai pro trono, a Elizabeth com essa cara fechada ou a Lady Gaga?"

Outro que não entendeu os fundamentos da cidade foi o arquiteto Milton Braga. Braga acha que a cidade "tem muito espaço e pouco público", criticando a desproporção entre as vastas áreas públicas e a população da cidade, além, é claro, de ser Brasília "um lugar nada atraente para quem gosta de andar". Ora Milton, da próxima vez escolha um passeio pela Paulista ou pelo Parque do Ibirapuera, mas nunca pela Marginal do Tietê ou pela av. Ypiranga.

Um enfoque mais perspicaz e profundo tem o arquiteto Guilherme Wisnik: "Brasília foi pensada por Lucio Costa como uma cidade de vida pacata, um pouco bucólica, uma cidade para funcionário público", diz Wisnik, observando que o núcleo familiar é essencial, norteador desse projeto. "Quem não tem esse lastro, fica desesperado nela." Realmente, não é uma cidade para flâneurs solitários, como Paris, mas pensada para concentrações de massa."

Na foto, o primeiro cinema de Brasília. Os que não suportam o convite dos espaços amplos, "do horizonte imenso e aberto, sugerindo mil direções", os que ficam confusos com o movimento incessante das nuvens ou com o céu imaculadamente azul, podem se esconder alí no escuro, entre imagens distantes e controladas.

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